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Sobre Mim:
Anderson, nascido em 17 de agosto de 1996 (17 anos), concluiu o Ensino Médio em 2012 e, até então, dedica o tempo ao vestibular - antes, para o curso de direito. É bem caseiro. Por natureza, carioca. Por acaso, blogueiro. Futuramente, estudante de Letras: Português-Literaturas. Talvez, dependendo das mudanças que o tempo proporciona, futuro professor de Língua portuguesa, Literatura e Redação. Como passatempo, escreve. Por amor, viciado em filmes e em livros. Gosta bastante da área de epistemologia, do existencialismo, de epifanias e tem como escritor/escritora preferida a Clarice Lispector.
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Sobre:
"Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras"
(Clarice Lispector)
Sobre:
"A missanga, todos a vêem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo"
(Mia Couto)
Sobre:
"Quanto a mim, só sou verdadeiro quando estou sozinho"
(Clarice Lispector)
"Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta."
(Cecília Meireles)
sábado, 16 de novembro de 2013
"I'm tired of changing so often, waiting in the waiting rooms, bus stations, train station, airports. I am tired of waiting for endless passport controls. Fast shopping in shopping malls. I am tired of more and more career decisions: museum and gallery openings, endless receptions, standing around with a glass of plain water, pretending that I am interested in conversation. I am tired of my migraine attacks. Lonely hotel room, room service, long distance telephone calls, bad TV movies. I am tired of always falling in love with a wrong man. I am tired of being ashamed of my nose being too big, of my ass being too large, ashamed about war in Yugoslavia. I want to go away. Somewhere so far that I'm unreachable, by fax or telephone. I want to get old, really, really old, so that nothing matters any more. I want to understand and see cleary what is behind all of this. I want not to want anymore."
(Marina Abramović)
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Voz: Aracy Balabanian
"Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor, SENTIR.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.
Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentaria na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu, daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.
No entanto, tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais."
(Clarice Lispector)
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
"Uma raposa faminta, ao ver cachos de uva suspensos em uma parreira, quis pegá-los, mas não conseguiu. Então, afastou-se dela, dizendo: "Estão verdes". Assim também, alguns homens, não conseguindo realizar seus negócios por incapacidade, acusam as circunstâncias."
(Esopo)
sábado, 2 de novembro de 2013
"Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar, e vejo às vezes que as espumas parecem mais brancas que às vezes durante a noite as águas avançaram inquietas, vejo isso pela marca que as ondas deixaram na areia. Olho as amendoeiras de minha rua. Presto atenção se o céu de noite, antes de eu dormir e tomar conta do mundo em forma de sonho, se o céu de noite está estrelado e azul-marinho, porque em certas noites em vez de negro parece azul-marinho. O cosmos me dá muito trabalho, sobretudo porque vejo que Deus é cosmos. Disso eu tomo conta com alguma relutância.
Observo o menino de uns dez anos, vestindo trapos e magérrimo. Terá futura tuberculose, se é que já não a tem.
No Jardim Botânico, então, eu fico exaurida, tenho que tomar conta com o olhar das mil plantas e árvores, e sobretudo das vitórias-régias.
Se tomar conta do mundo dá trabalho? Sim. E lembro-me de um rosto terrivelmente inexpressível de uma mulher que vi na rua. Tomo conta dos milhares de favelados pelas encostas acima. Observo em mim mesma as mudanças de estação: eu claramente mudo com elas.
Hão de me perguntar por que tomo conta do mundo: é que nasci assim, incumbida. E sou responsável por tudo o que existe, inclusive pelas guerras e pelos crimes de leso-corpo e lesa-alma. Sou inclusive responsável pelo Deus que está em constante cósmica evolução para melhor.
Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas: elas andam em fila indiana carregado um pedacinho de folha, o que não impede que cada uma, encontrando uma fila de formigas que venha de direção oposta, pare para dizer alguma coisa às outras.
Li o livro célebre sobre as abelhas, e tomei desde então conta das abelhas, sobretudo da rainha-mãe. As abelhas voam e lidam com flores: isto eu constatei.
Mas as formigas têm uma cintura muito fininha. Nela, pequena como é, cabe todo um mundo que, se eu não tomar cuidado, me escapa: senso instintivo de organização, linguagem para além do supersônico aos nossos ouvidos, e provavelmente para sentimentos instintivos de amor-sentimento, já que falam. Tomei muito conta das formigas quando era pequena, e agora, que eu queria tanto poder revê-las, não encontro uma. Que não houve matança delas, eu sei porque se tivesse havido eu já teria sabido. Tomar conta do mundo exige também muita paciência: tenho que esperar pelo dia em que me apareça uma formiga. Paciência: observar as flores imperceptivelmente e lentamente se abrindo.
Só não encontrarei ainda a quem prestar contas."
(Clarice Lispector)
Hoje, pela manhã, estava indo de ônibus (bendito-não-tão-bendito ônibus) para a casa da minha mãe. Não costumo a dormir em locais públicos (seria medo ou necessidade de autoafirmação de estar acordado?), mas aconteceu. Foi daí que acordei da pior forma possível: uma mãe batendo no próprio filho de modo esdrúxulo (espero ter dado ênfase o suficiente para esse ato medonho). Não sei se vocês concordam, mas para mim, o verdadeiro amor de mãe é insuperavelmente a coisa mais linda que há no mundo. Não estou dizendo que ela não ame verdadeiramente o seu filho, mas a atitude dessa mãe-do-ônibus a obriga a assinar atestados de incompetências tanto como mãe quanto como um ser humano racional que tem a capacidade de impor moral ou de trabalhar a educação do próprio filho com meios procedentes. Com o primeiro tapa, ela assinava o primeiro atestado; com o segundo, assinava o segundo atestado; já do terceiro em diante, era pura vontade de bater. Isso fez a atitude mais esdrúxula o possível. Isso fez a minha revolta. Uma revolta calada. Afinal, não soube o que falar (ou como falar) na hora. Deveria eu falar alguma coisa mesmo? Eu tinha moral o suficiente? Eu saberia resolver conversando? Não. Então deveria ter dado uma surra nessa mãe - seguindo a lógica dela? Deveria ter assinado algum atestado animalesco desses? Como funciona a Lei da Palmada afinal (isso se realmente funciona)?
O fato é que o Estado precisa atuar mantendo o equilíbrio entre os homens para evitar que eles sofram com os principais devastadores de suas vidas: eles mesmos. A Lei da Palmada deve ser trabalhada para ser efetivamente adicionada no cotidiano, assim como ela foi estabelecida na legislação. Mas, afinal de contas, quem são os responsáveis a fazer isso? Nós - os próprios culpados/vítimas. [?]
“Aproximou-se da
janela, sentiu frio nos ombros nus, olhou a terra onde as plantas viviam
quietas. O globo movia-se e ela estava sobre ele de pé. Junto a uma janela, o
céu por cima, claro, infinito. Era inútil abrigar-se na dor de cada caso,
revoltar-se contra os acontecimentos, porque os fatos eram apenas um rasgão no
vestido, de novo a seta muda indicando o fundo das coisas, um rio que seca e
deixa ver o leito nu.
A frescura da tarde
arrepiou sua pele, Joana não conseguiu pensar nitidamente – havia alguma coisa
no jardim que a deslocava para fora de seu centro, fazia-a vacilar... Ficou
sobreaviso. Algo tenta mover-se dentro dela, respondendo, e pelas paredes
escuras de seu corpo subiam ondas leves, frescas, antigas. Quase assustada,
quis trazer a sensação à consciência, porém cada vez mais era arrastada para
trás numa doce vertigem, por dedos suaves. Como se fosse de manhã.
Perscrutou-se, subitamente atenta como se tivesse avançado demais. De manhã?
.
.
.
De manhã. Onde
estivera alguma vez, em que terra estranha e milagrosa já pousara para agora
sentir-lhe o perfume? Folhas secas sobre a terra úmida. O coração
apertou-se-lhe devagar, abriu-se, ela não respirou um momento esperando... Era
de manhã, sabia que era de manhã... Recuando como pela mão frágil de uma
criança, ouviu, abafando como em sonho, galinhas arranhando a terra. Uma terra
quente, seca... o relógio batendo tin-dlen...tin...dlen... o sol chovendo em
pequenas rosas amarelas e vermelhas sobre as casas... Deus, o que era aquilo
senão ela mesma? mas quando? não sempre...
As ondas
Cor-de-rosa escureciam, o sonho fugia. Que foi que perdi? que foi que perdi?
Não era Otávio, já longe, não era o amante, o homem infeliz nunca existira.
Ocorreu-lhe que este deveria estar preso, afastou o pensamento impaciente,
fugindo, precipitado-se... Como se tudo participasse da mesma loucura, ouviu
subitamente um galo próximo lançar seu grito violento e solitário. Mas não é de
madrugada, disse trêmula, alisando a testa fria... O galo não sabia que ia
morrer! O galo não sabia que ia morrer! Sim, sim: papai que é que eu faço? Ah, perdera o compasso de um
minueto... Sim... o relógio batera tin-dlen, ela erguera-se na ponta dos pés e
o mundo girava muito mais leve naquele momento. Havia flores em alguma parte? e
uma grande vontade de se dissolver até misturar seus fios com o começo das
coisas. Formar uma só substância, rósea e branda – respirando mansamente como
um ventre que se ergue e se abaixa, que se ergue e se abaixa... (...)”
(Clarice Lispector)
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Fico
bastante chateado quando dizem que quem prefere ou, até mesmo, apenas faz o
simples uso da cultura estrangeira desvaloriza a nacional.
“Marcelo acha que Ana é mais bonita que Maria”.
Isso, portanto, significa que Marcelo não acha ou poderia achar que a Maria
é bonita também? Se ele batesse no peito e dissesse que a Maria é feia,
aumentaria a beleza da Ana?
É evidente que há pessoas que ignoram a
cultura do Brasil. Em muitos casos, são pessoas que não têm o conhecimento
necessário para tirar essa conclusão, pois se limitam ao estrangeirismo. Para
resolver isso, entra, por exemplo, a participação do professor de literatura
brasileira. Este atuará apresentando o mundo dessa literatura aos alunos, que precisam conhecer e desenvolver senso crítico sobre o assunto e, é claro,
fazer valer a liberdade de efetuar escolhas - não viver em uma bolha
ilogicamente.
Outro ponto evidente é que o Brasil, muitas
vezes, sofre com a homogeneização de si mesmo. Assim, necessita da intervenção
estrangeira para reverter o processo. Não devemos encarar isso como
inferioridade ou uma “subordinação do mal”, pois o Brasil é singular; o outro
abrange o resto do mundo – é plural. Se você considera relevante o fenômeno do
“mas o outro também é”, saiba que, nesse aspecto, não há país de cultura
autossuficiente (falo pelo meu desconhecimento de haver um e, portanto, peço
encarecidamente que prove que estou errado se eu estiver).
Acho
entristecedor saber que tem gente que faz questão de bater no peito e dizer não
a uma música internacional, ao Bukowski ou a um "Halloween da vida"
achando que esse é o meio de resolver a questão da negligência que, de fato,
infelizmente existe para com a cultura nacional. Como se fosse uma questão
de equilíbrio em uma “balança de dois braços” em que só um lado sairia
ganhando.
O fato é
que a nossa cultura foi formada por uma síntese que teve, também,
incrementações estrangeiras. Isso não significa inferiorização, mas uma mistura
que só a gente teve e foi capaz de estabelecer. Tudo se trata de uma "balança
sem braços" cujos pesos das diversas massas resultam em um só – um peso de conjunto harmônico.
Uma mistura que, de certa forma, foi feita pelo brasileiro para o Brasil.
Maria poderia ser a mais bonita para o João e
para o Pedro. Em um dia de inverno, talvez fosse, até mesmo, a mais bonita para
o tal Marcelo. Os três são livres para fazer escolhas sobre um ponto que é completamente
pessoal.
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